Se fosse me guiar pelas resenhas do Skoob eu não teria muito o que dizer aqui. Devo dizer, existe uma superficialidade nas resenhas atualmente e esse foi um dos motivos pelos quais eu decidi escrever sobre Amêndoa - um relato erótico.
Esse livro me encantou de cara, pela capa. Mas lendo a sinopse eu percebi que poderia ser interessante e diferente de outros livros que li. Além de ser narrado em primeira pessoa por uma mulher árabe, que é a personagem Brada, nós temos nela uma mulher fora do que esperamos. Brada não é convencional, desde o primeiro capítulo ela fala sobre si mesma e essa primeira apresentação dela não nos prepara para o que vem depois.
Existe crueza nesse texto, mas essa crueza é essencial para que esse livro seja o que ele é. Normalmente mulheres árabes não escrevem livros como Amêndoa. Ele é visceral em muitas partes, ele é feminino, forte, apaixonante, mas para além disso: ele é um retrato da vida de mulheres que não se resignam a viver como a sociedade em que elas vivem impõe.
Seria ingenuidade de pessoas que leram homens como Lord Byron e que sabem que esses mesmos homens puderam se expressar por séculos a fio, sem nenhum tipo de imposição, acharem que Amêndoa é para qualquer um. Não é. Esse livro é para pessoas que acreditam em um mundo onde as mulheres possam ser quem elas são, mas que já vivem em um mundo onde elas podem se expressar da forma que quiserem.
Essa história é dolorosa, acima de tudo. Mostrando que muitas mulheres serão aquilo que a sociedade diz que elas são, mas que outras nem isso poderão ser. Brada, em sua jornada, denuncia, protesta, ama, ri, sofre, se doa e expõe tudo que ela viveu ao longo dos seus cinquenta anos de vida. O livro não é contato em capítulos, a história é não linear, porém segue uma cronologia própria, de forma crescente, intercalada em alguns momentos por histórias da infância, adolescência e vida adulta de Brada, além de história de mulheres ao redor dela.
Embora o livro seja erótico e gráfico em diversos momentos, ele é muito mais que isso. Esse livro é sobre a união feminina, sobre quebras de paradigmas por mulheres fiéis a elas mesmas e, em muitos momentos, a seus homens ou mulheres. Sobre como essas mulheres vivem nessa cultura que, assim como muitas outras, não é feita para as mulheres e não se manifesta quando elas estão sofrendo, morrendo e sangrando.
Brada nos leva por sua cultura, por seu corpo, alma e por sua vida, que é uma jornada linda, triste e apaixonada do início ao fim. Eu não só indico o livro, como peço que os futuros leitores que estejam lendo a resenha lembrem que nem toda produção literária vem da América do Norte e/ou Europa. Leiam com a alma aberta, só assim a história pode entrar.

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